Função poética e informação estética
A função do poeta, no sentido do exercício predominante da função linguistica centrada sobre a própria estrutura sensível de sua mensagem, é, pois, a de um configurador de mensagens. O poeta é um designer da linguagem, como o exprime Décio Pignatari, num paralelo que toma como ponto de referência o desenhista industrial empenhado na melhor configuração do objeto que projeta. Se tivermos em vista algumas das reflexões de Jakobson sobre a assência da linguagem, nas quais o notável linguista russo, com apoio inclusive na teoria dos “graphs”, salienta o caráter diagramático., icônico (trata-se de um ícone de relações, como a álgebra), presente nas estruturas sintáticas e morfológicas da linguagem, poderemos extrair, em abono da fórmula Pignatari acima referida, a idéia de que o poeta é um diagramador da linguagem, tirando especial partido, no campo onde a função poética é a dominante, das virtualidades desses constituintes icônicos.
(A arte no horizonte do provável – Horoldo de Campos – São Paulo – Perspectiva, 1975)
A linguagem poética
... O poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem, fazendo poema. Está sempre criando e recriando a linguagem. Vale dizer: está sempre criando o mundo. Para ele, a linguagem é um ser vivo. O poeta é radical (do latim, radix, radicis = raiz): ele trabalha as raízes da linguagem. Com isso, o mundo da linguagem e a linguagem do mundo ganham troncos, ramos, flores e frutos. É por isso que um poema parece falar de tudo e de nada, ao mesmo tempo. É por isso que um (bom) poema não se esgota: ele cria modelos de sensibilidade. É por isso que um poema, sendo um ser concreto de linguagem, parece o mais abstrato dos seres. É por isso que um poema é criação pura – por mais impuro que seja. É como uma pessoa, ou como a vida: por melhor que você a explique, a explicação nunca pode substituí-la. É como uma pessoa que diz sempre que quer ser compreendida. Mas o que ela quer mesmo é ser amada.
(O que é comunicação poética – Décio Pignatari – 8. Ed. – Cotia , SP: Ateliê Editorial, 2005)
...“A poesia se faz com palavras e não com idéias”. (Mallarmé) Por este motivo Sarte pode sustentar que, na poesia, a palavra funciona como coisa.
... Colin Cherry, falando do ponto de vista da teoria da comunicação, adverte: “uma palavra é mais do que um signo arbitrário escrito ou oral; é ademais tudo o que ela carreia em associações”.
... O que caracteriza a função poética é, assim, um uso inovador, imprevisto, inusitado das possibilidades do código da língua.
... Se a ambiguidade existe, pois, na comunicação referencial cotidiana, nas relações interpessoais mais elementares via língua (o mal entendido é o cerne da tragédia, já dizia Camus), na poesia, com o exercício predominante da função poética, ela domina.
... Para Umberto Eco, a mensagem reveste uma função estética quando se apresenta estruturada de maneira ambigua e se mostra auto-reflexiva, isto é, quando chama a atenção do destinatário antes de tudo sobre a própria forma dela mensagem.
(A arte no horizonte do provável – Horoldo de Campos – São Paulo – Perspectiva, 1975)
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
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